O COPO DE ARROZ CRU
E mordida de jegue é arroz-doce? Pense uma vida difícil. É ônibus, trem, dia quente. Meu marido mantinha a casa. Cobrador. Venceu na vida. Não sofria mais em obra. Pegar peso, quebrar pedra. Deixou a unha crescer. Do dedo mindinho. Assim. Tem estilo. Não peleja mais com braço. Trabalha com a inteligência! Cobrador. Venceu na vida. Tenha estilo! Ele tem. O meu marido.
Mas pense uma vida difícil. Muita conta. Muito carnê. Mas tinha fogão e tevê! A geladeira já estava atrasada. O dinheiro é que a gente vai ver. Tia Nêga bem que me disse.
– Pega um copo de arroz cru! Bota no canto da sala. Assim atrás do sofá. Que ninguém vê e ninguém sabe.
Diz que traz abundância, não sei. Tenha estilo! Não pense bestagem! Abundância é coisa de comer! Que não deixa faltar. Passar fome. Fartura? Isso! Fartura.
Apois pense uma vida difícil. E traficante não pede pedágio? Pra quem vai trabalhar! Tinha que acordar mais cedo! Pra não ter que pagar. Tenha estilo! Não dou dinheiro pra safado! Cortaram a cabeça de meu neto. Largaram no ponto de ônibus. No banco assim de graça.
Pense uma vida difícil! É dinheiro do tráfico, trem. Do busão e até do ladrão! É muito dinheiro que gasta. Pra ir trabalhar.
E gente velha parece desgraça. Ninguém quer bangalô três vezes! Meu marido tem estilo, viu? Deixou a unha crescer. Do dedo mindinho. Comprida assim. A firma não quis mais ele. Afirma não ter dinheiro. A fim de cortar o custo. Mas meu marido é Zé Augusto. Meu marido tem estilo. Comprida assim. Deixou a unha.
Já fez bem um ano assim. Sem emprego, dinheiro, doente. O carnê indo atrás da gente. Eu tinha fogão e tevê! A geladeira já levaram. O resto tive que vender. Um ano a pão e água.
Mas ontem o pão acabou. Bem no inverno, a comida esgotou. Na noite em que eu ia morrer, de fato, de fome, fraqueza. Ao chão, moribundos, com frio. Encontramos no copo o arroz cru.
Tenha estilo! Fiz logo um sopão! Comemos. Sorrimos. Dormimos. Tia Nêga não tinha razão? Não morremos de fome à noite. Pra passar por mais fome de dia. Dinheiro? Não. Tenha estilo! Vim aqui atrás de serviço.
Mas pense uma vida difícil. Muita conta. Muito carnê. Mas tinha fogão e tevê! A geladeira já estava atrasada. O dinheiro é que a gente vai ver. Tia Nêga bem que me disse.
– Pega um copo de arroz cru! Bota no canto da sala. Assim atrás do sofá. Que ninguém vê e ninguém sabe.
Diz que traz abundância, não sei. Tenha estilo! Não pense bestagem! Abundância é coisa de comer! Que não deixa faltar. Passar fome. Fartura? Isso! Fartura.
Apois pense uma vida difícil. E traficante não pede pedágio? Pra quem vai trabalhar! Tinha que acordar mais cedo! Pra não ter que pagar. Tenha estilo! Não dou dinheiro pra safado! Cortaram a cabeça de meu neto. Largaram no ponto de ônibus. No banco assim de graça.
Pense uma vida difícil! É dinheiro do tráfico, trem. Do busão e até do ladrão! É muito dinheiro que gasta. Pra ir trabalhar.
E gente velha parece desgraça. Ninguém quer bangalô três vezes! Meu marido tem estilo, viu? Deixou a unha crescer. Do dedo mindinho. Comprida assim. A firma não quis mais ele. Afirma não ter dinheiro. A fim de cortar o custo. Mas meu marido é Zé Augusto. Meu marido tem estilo. Comprida assim. Deixou a unha.
Já fez bem um ano assim. Sem emprego, dinheiro, doente. O carnê indo atrás da gente. Eu tinha fogão e tevê! A geladeira já levaram. O resto tive que vender. Um ano a pão e água.
Mas ontem o pão acabou. Bem no inverno, a comida esgotou. Na noite em que eu ia morrer, de fato, de fome, fraqueza. Ao chão, moribundos, com frio. Encontramos no copo o arroz cru.
Tenha estilo! Fiz logo um sopão! Comemos. Sorrimos. Dormimos. Tia Nêga não tinha razão? Não morremos de fome à noite. Pra passar por mais fome de dia. Dinheiro? Não. Tenha estilo! Vim aqui atrás de serviço.
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12:36:31
Quem crê no cru? Ou melhor, quem crê na simpatia do copo de arroz cru? O conto é uma verdeira fábula sobre a prodigalidade. A salvação proporcionada pela “mandinga” não foi nenhum evento miraculoso. Ela própria era o alimento, tal qual foi mantida ali, num canto da casa, inerte. Assim deveria ter feito o marido da narradora com o seu dinheiro. Mas o deslumbramento provocado pela sua “ascensão social” dentro da miséria não lhe permitiu. Cresceram a unha, o salário, as ambições, os carnês. Euforia, alegria seguidas de tristeza e fome. E o copo de arroz ali mantido, garantindo-lhes provisão de alimento por um dia, é uma verdadeira alegoria à importância da parcimônia. O copo funciona como um símbolo, incompreendido pelos personagens do conto, da importância de preocupar-se com a provisão para o futuro. Por fim, ele tem estilo. O cobrador? Também.
“A FIRMA não quis mais ele. AFIRMA não ter dinheiro.” Só para citar uma frase que bem ilustra como o autor constrói cada frase de forma meticulosa.
Ótimo conto. Parabéns!
Eduardo
Eduardo
Primeiro pensei: “Poxa, bem que eu podia ter tido uma Tia Nêga que me desse essa dica!” Mas todo mundo tem um copo de arroz esquecido num canto da sala. É incrível como, na hora do aperto, parece mágica, o copo de arroz aparece. Na minha vida tem sido assim. E vai continuar mesmo o arroz virando rice o o dinheiro virando money, I mean, dollar!!!
Adorei…depois vou ler mais vezes e com mais calma……………..fique com deus e se vier para Penedo não esqueça de me avisar……. um enorme abraço…… vrinda
gostei do ritmo e de saborear as palavras, como em um trava-língua, orgasmos múltiplos em meus neurônios…eles adoram algo que os desperte e os force a fazer conexão…
Gostei bastante!
Parabéns!
Dani
Adorei o conto! Mais ainda o final!! Parabéns!
Abraço!
Karina
http://www.chamkli.blogspot.com
thanks for sharing!