O SEXO DOS AUTORES
Se Nelson Rodrigues estivesse morto, não poderia ter escolhido o seu melhor terno, a sua melhor gravata, o seu melhor sapato e chegar, a nado, meia hora antes da abertura da V Festa Literária Internacional de Paraty. Não o teria encontrado vagando – com um ar indubitável de prêmio Nobel – pelas irregulares vielas de pedra. Tentei interpelá-lo, mas torci meu tornozelo – que exigia mais zelo do que torno – em mais um vão. E, em vão, levantei a cabeça. Era tarde demais. Desaparecera na multidão de pseudo-coxos. Então resolvi me preocupar com a vergonha enrustida da queda. Endireita o corpo, finge que o tropicão foi planejado, algo pra apanhar, sei lá, seu Pantera no porão autografado antes que toque o chão. Uma técnica nova. Aumenta a velocidade. Algo oriental. Marcial. Sempre há quem acredite. Espero. E mira o horizonte até dobrar a esquina. Se eu tivesse conseguido uma palavrinha com o Nelson (só muita proximidade ou a maior das distâncias geram tal intimidade), não perguntaria o que está achando da FLIP este ano, nem se estava – era nítido – prosa com a homenagem, ou onde fica a Rua da Matriz. Eu desabafaria: - Tenho uma crônica pra entregar na quarta e ainda não sei o assunto. (Lógico, não antes de pedir um autógrafo n’A cabra. A vadia. O livro.) E Marcelino Freire, caramigo, me sugeriu: - “Sexo! Escreva sobre sexo!”. Se ele acha que me ajudou, está muito do enganado. Fez é me atrapalhar. Uma das minhas idéias latentes – daquelas que ainda não estão maduras o suficiente para se dizer que já se tem um assunto – era a esse respeito. Eis o que eu queria dizer. Muito se ouve sobre o sexo dos anjos, mas pouco se fala sobre o sexo dos autores. Dirá alguém que anjo, garçom e autor não tem sexo. Como autor não tem sexo? Como? E como! Como! E se como logo existo. E na tenda dos autores, só não arma a barraca quem é ruim da cabeça ou doente do pé. E entenda pé como quiser. Quase-rima não à toa. É só pra levar na boa. É só para amenizar. Autor não tem sapinho! Autor não tem lepra! Autor também trepa! Tem autor que ama autor, tem o que ama leitor. O que come, o que quer dar. O que prefere variar. O que quer dor; outros, sem dor. Autor também é ser humano. Mês passado – ou será antes? –, num uísque com Raimundo, o Carrero – eu pedi chope –, Marcelino revelou-me: - “Tem muito escritor que reclama. Mas reclama de pau duro!”. Eu discordei e completei: - “Então é de saco vazio!”. Os dois logo concordaram. O Freire e o Carrero, hoje homem sério, apaixonado e tudo, mas que já teve seus tempos. De fama, ou de cama, ou de saco, vazio, sei lá. Autor também é ser humano. Mas eu estava dizendo: - Não há coisa pior para um escritor do que alguém lhe sugerir uma idéia que ele já teve. Os brios do bom escritor são dilacerados com a suspeita do plágio. Deixa-se de escrever um bom texto por orgulho. Ora, o regozijo do bom escritor é ser original. E quando a idéia é de fato sua, a agonia é tanto maior. Muitos já quiseram me dar opinião. E eu pedi que se calassem. Lá lá lá lá lá, não tô ouvindo nada! Depois que eu escrever, você me conta. Coisa e tal. No entanto, o Sexo! do Marcelino fora fulminante. (Uau! Isso pode pegar mal. Ou bem. Não sei.) Não era uma pergunta. Era um desabafo. Mal deu tempo de desembainhar meu dedo. O assunto estava sugerido. A agonia autoral iniciada. E o prazo – sempre o prazo – terminando – sempre terminando. O que alivia, e muito, a nossa consciência. E passamos a acreditar que a idéia foi nossa mesmo e o resto é balela. Se Nelson Rodrigues estivesse morto, não o teria visto no outro lado da ponte, resignado com a fanta uva zero da grã-fina. Talvez encontre o chica-bon. Ainda vende. Eu acho. E imagino que o assunto desta crônica o agrade. Uma dama do fretado aqui, um vestido de autora ali, uma best-sellerzinha, mas ordinária, acolá. Sei lá. Se Nelson Rodrigues estivesse morto, não estaria aqui, nessa crônica. Não estaria na FLIP deste ano. Não estaria tão vivo.
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15:37:50
Ao caramigo Leandro Leocadio, meus elogios pela crônica. Como o autor do texto já me disse amiúde, percebe-se a qualidade de um bom texto logo pela leitura da primeira frase. “Se Nelson Rodrigues estivesse morto… ” A presença do escritor entre nós é revelada sem negar diretamente a sua morte e tampouco afirmando-se de modo peremptório que ele está vivo. Com habilidade, anunciou que ali estava o escritor, caminhando despreocupadamente pelas ruas de Parati, sem que isso significasse uma revelação fantástica, improvável e inesperada. Não há lugar para excessos laudatórios nesta crônica. Simplesmente o homenageado está ali e tão bem vestido que nem mesmo se “estivesse morto” estaria assim trajado. O texto é conciso, dinâmico, bem humorado, sem perder o zelo na escolha de cada palavra. Narrativa sem tropicão. Neologismos bem-vindos (caramigo, best-sellerzinha).
Sem pudores, desvenda o conflito interior pelo qual passa o escritor em seu processo criativo. A busca incessante da originalidade. Busca árdua na qual não basta que sua obra não seja a imitação de outra anterior. A originalidade literária exige ainda a singularidade da obra. Se concomitantemente alguém tiver a mesma idéia, a originalidade vai ruir. Difícil tarefa para vocês, “pobres escritores”! Aforturnados nós, os leitores!
Eduardo Candido da Silva,
Obrigado pela crítica. Principalmente por ser favorável. Valeu! Já o “caramigo” é do Marcelino. Digo, Marcelino é meu caro amigo. Mas o caramigo é dele. Característico em suas cartas e tal aos amigos. Dele. Como eu. Que sou seu caramigo. Dele. Entendeu, caramigo?
Pois é, mesmo depois de morto, ele continua muito vivo. Deve ser porque havia muita vida em sua literatura. Vida real! Como ela é…
Thiago de Góes,
Como ela é, meu caro. Como ela é…
LLL, adorei a excitante crônica. Paurabéns e abraços, MF.
Marcelino Freire,
Caramigo! Obrigado pela visita e pelo carinho. Um abração, LLL.
Leandro, nego véio:
O Nelson Rodrigues ficou parecendo um fantasma sedutor vagando em meio às pedras toscas de Paraty - assentadas algumas por braço escravo, à época do Império, e arrumadas outras no tira-e-põe das reformas modernas. Parabéns pelo texto. Tiras leite de pedra, meu caro. O que farás então se tiveres uma vaca às mãos?
Um abraço do Ovídio.
Ovídio Poli Junior, véio amigo,
Mas Paraty inspira e contagia. Aí é covardia. Valeu pela visita. Um grande abraço.
A word vomit explosion!!! I’m glad to hear about that